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CALENDÁRIO NEGRO – MAIO

1 – Circula em Campos (RJ), o primeiro número do jornal Vinte e Cinco de Março, de propriedade de Carlos Lacerda, inimigo radical da escravatura, contendo matéria onde se insinuava que os abolicionistas daquela cidade utilizar-se-iam mesmos de métodos violentos, se isso se fizesse necessário, com vistas ao alcance de seus objetivos. (1884)
1 – Nasce em Salvador (BA), o poeta José Carlos Limeira Marinho Santos (1951)
2 – Nasce em Miraí (MG), o cantor, compositor e letrista, Ataulfo Alves, autor de: "Ai que saudades da Amélia", "Errei Sim", "Na Cadência do Samba", "Leva meu samba", "Atire a primeira pedra" (1909)
2 – Nasce na Bahia, Maria Stella de Azevedo Santos - Mãe Stella de Oxossi, uma das mais importantes ialorixás brasileiras, sacerdotisa do Ilê Axé Opô Afonjá (1925)
2 – Com a atenção de todo o planeta voltada para a África do Sul e a presença de inúmeras personalidades, entre elas Coretta King, viúva do líder americano Martin Luther King, Nelson Mandela recebe a faixa presidencial de Frederick de Klerk, tornando-se o primeiro negro a presidir o país (1994)
3 – A ordem de São Bento institui o regime de "Ventre Livre" nas suas propriedades (1865)
3 – Nasce numa pequena cabana de madeira na floresta de Barnweel (EUA), o "padrinho do soul", James Brow (1933)
3 – Nasce em Cachoeiro do Itapemirim (ES), Elson Ananias, o famoso mestre-sala Elson PV (1940)
3 – Nascimento do geógrafo Milton Santos, que revolucionou a Geografia, dando-lhe um enfoque humanista (1926)
4 – O
s "Viajantes da Liberdade" - ativistas pelos direitos civis em defesa dos direitos da população negra nos Estados Unidos que, entre o ano de 1961 e os seguintes, viajaram em ônibus interestaduais pelo sul dos Estados Unidos (1961)

4 – Nasce em Indiana, nos EUA, Sigmund Esco Jackson, o Jackie Jackson, um dos primeiros integrantes da banda Jackson Five e o mais velho da família Jackson (1951)

5 – Nasce em Rio Claro, (SP), a cantora Vicentina de Paula Oliveira, Dalva de Oliveira que eternizou através de sua voz, canções como: "Ave Maria no Morro", "Vingança", "Máscara Negra", entre tantos sucessos (1917)
5 – Fundação no Rio de Janeiro, da Associação das Escolas de Samba do Brasil (AESB) (1952)
5 – Nasce em Salvador (BA), o Bloco-Afro Muzenza (1981)
6 – É inaugurada em Salvador (BA), a Casa do Benin (1988)

8 – Nasce em Hazlehurst, Mississipi (EUA), o cantor de blues, Robert Johnson (1911)
8 – Nasce no bairro de Madureira, Rio de Janeiro, Neuma Gonçalves da Silva - D. Neuma, uma das mais tradicionais integrantes da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira (1922)
8 – Em uma noite histórica para o teatro brasileiro, o ator Aguinaldo Camargo no palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, viveu o trágico Brutus Jones O'Neill na peça "O Imperador Jones". Era a primeira apresentação do T E N - Teatro Experimental do Negro (1945)
9 – Nasce no Rio de Janeiro o escritor, filólogo, bacharel em Direito, poeta, compositor e sambista Nei Braz Lopes - Nei Lopes (1942)
9 – Fundação em Belo Horizonte (MG), da Casa Dandara, entidade voltada para a promoção da cultura afro-brasileira. (1987)
10 – O líder Nelson Mandela assume a presidência da África do Sul (1994)
11 – Realiza-se no Rio de Janeiro (RJ), organizada pelo Movimento Negro, a Marcha Contra os 100 Anos de Opressão (1988)
11 – Nasce na Rua Fonseca Telles, bairro de São Cristóvão, Rio de Janeiro, o cantor e compositor José Bispo Clementino dos Santos - Jamelão (1913)
12 – Nasce em Ovamboland, fronteira da Namíbia com Angola, o presidente da SWAPO, Shafushuna Samuel Nujoma - Sam Nujoma (1929)

12 – Nasce no Rio de Janeiro, a atriz Ruth Pinto de Souza - Ruth de Souza (1931)
12 – Encenação da "Missa dos Quilombos" pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro (1988)
12 – Dia da Escrava Anastácia
13 – Dia consagrado aos Pretos Velhos
13 – Nasce numa sexta-feira, Afonso Henrique Lima Barreto, uma das maiores expressões da literatura brasileira. Escreveu verdadeiras obras-primas como "Recordações do Escrivão Isaías Caminha", "Triste Fim de Policarpo Quaresma", "Clara dos Anjos", "Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá" (1881)
13 – Assinada pela Princesa Isabel a Lei Áurea declarando extinta a escravidão no Brasil, último país da América a libertar seus escravos (1888)
13 – Nasce em São Pedro da Aldeia (RJ), o artista plástico e único morador da Casa da Flor, Gabriel Joaquim dos Santos. Construção feita com suas próprias mãos utilizando cacos, faróis de automóveis, espelhos, mariscos, etc. (1892)
13 – Fundação em Itapetininga (SP) do Clube Recreativo 13 de Maio (1911)
13 – Nasce nos Estados Unidos o pugilista Joe Louis (1914)
13 – O Jornal "O Clarim da Alvorada", promove uma romaria aos túmulos dos abolicionistas Luiz Gama e Antônio Bento, no Cemitério da Consolação, em São Paulo (1927)
13 – Nasce em Ouro Preto (MG), o compositor Sebastião Vitorino Teixeira Catone, da Portela (1930)
13 – Nasce em Caitité (BA), o cantor e compositor Eurípedes Waldick Soriano - Waldick Soriano (1933)
13 – Nasce em Macaé (RJ), a cantora Abelim Maria da Cunha - Angela Maria (1929)
13 – Nasce no Rio de Janeiro, o ator, escritor e produtor cultural Haroldo Costa (1930)
13 – Nasce nos Estados Unidos, o cantor e compositor Steveland Morris - Stevie Wonder (1950)
13 – Inauguração do Monumento aos Pretos Velhos, no bairro de Inhoaíba, Rio de Janeiro (1958)
13 – A Lei de n. 2 340 de autoria do Deputado Estadual Jorge Leite, muda o nome da Rua Maruim no bairro de Madureira (RJ) para rua Compositor Silas de Oliveira (1974)
13 – Fundação no bairro do Engenho Velho de Brotas, Salvador (BA), do Afoxé Badauê (1978)
13 – Fundação no Rio de Janeiro, do Bloco Afro Cultural Olodumarê dos Palmares (1985)
13 – Dia Nacional de Denúncia contra o Racismo
14 – Os líderes da Revolta dos Malês, os libertos Jorge da Cunha Barbosa e José Francisco Gonçalves e os escravos Gonçalo, Joaquim e Pedro, são fuzilados no Campo da Pólvora, em Salvador (BA) (1835)
14 – Nasce em New Orleans, o músico Sidney Bechet (1897)
15 – Ministério da Justiça do Pará relatava terem os negros escravizados na fazenda "Pernambuco", pertencente ao Convento do Carmo, expulsado o feitor e assenhorando-se na fazenda mantendo em estado de rebelião (1866)
15 – Nasce em Campo Belo (MG), a pintora Maria Auxiliadora (1938)
15 – Nasce em São Paulo, o cantor Mário Ramos - Vassourinha (1923)
15 – Nasce em Muriaé (MG), Geraldo Teodoro, Mestre Teodoro, fundador da Folia de Reis "Estrela Dalva do Oriente, no subúrbio da Penha, Rio de Janeiro (1926)
15 – Nasce em Flint, Michigan (EUA), a cantora Lillie Mae Jones, Betty Carter, uma das grandes damas do jazz norte-americano (1929)

16 – O cantor Michael Jackson lança pela primeira vez em um show o passo Moonwalk (1983)
16 – Nasce em Indiana, EUA,
Janet Damita Jo Jackson, a cantora Janet Jackson (1966)

17 – Nasce no Rio de Janeiro, João Machado Guedes - João da Baiana, compositor, ritmista, autor de sambas, corimá, chulas, batucadas e vários pontos de candomblé (1887)
17 – Nos Estados Unidos, a Suprema Corte bane a segregação racial em escolas públicas (1954)
17 – A gaúcha Deise Nunes de Souza é coroada Miss Brasil. A primeira Miss Brasil negra em todos esses anos de concurso (1986)
18 – O baiano Antônio Ferreira França apresenta projeto de sua autoria fixando a data de 25 de maio de 1881 para a total extinção da escravatura no país (1830)
18 – O arcebispo sul-africano Desmond Tutu, Prêmio Nobel da Paz em 1984,chega ao Brasil para uma visita de uma semana (1987)
18 – Nasce em Omaha, Nebraska, (EUA), o fundador do movimento Black Muslims (Muçulmanos Negros), Malcolm Little, conhecido internacionalmente como Malcolm X (1925)
18 – Criação do Conselho Nacional de Mulheres Negras, no Rio de Janeiro (1950)
19 – Nasce no Rio de Janeiro (RJ) o cantor, compositor e instrumentista Alfredo José da Silva - Johnny Alf (1929)
20 – Nasce no Recife (PE), o músico, compositor e instrumentista Felipe Neri Trindade (1714)
20 – Nasce a bailarina e coreógrafa Mercedes Batista, primeira bailarina negra do Teatro Municipal (1921)
21 – Nasce no bairro da Gamboa (RJ), o pintor Manuel Faria Leal (1938)
21 – Nasce no Brooklin, EUA,
Christopher George Latore Wallace, o The Notorious B.I.G, Biggie ou Biggie Smalls, considerado um dos maiores rappers de todos os tempos (1972)

22 – Nasce em Londres, Naomi Elena Campbell ou Naomi Campbell, top model (1970)

22 – Nasce em Birmigham, Alabama (EUA), Herman Poole Blount ou Le Sony'r Ra, compositor de jazz, bandleader, pianista, poeta e filósofo, conhecido por sua "filosofia cósmica", composições musicais e performances (1914)
23 – Fundação em Salvador (BA), do Bloco-afro Malê Debalê (1979)
23 – Nascimento do poeta Carlos de Assumpção, autor do célebre poema Protesto (1927)

24 – Nasce em Kingston, Jamaica, Cecil Bustamente Campbell ou Prince Buster, uma das figuras mais importantes na história do Ska e do Rocksteady (1938)
25 – Criação da Organização da Unidade Africana - OUA (1963)
25 – Dia da Libertação da África, promovido pela ONU (1972)

25 – Dia de Solidariedade aos Povos da África Austral, instituído pela ONU em 20/05/72
25 – Nasce no bairro do Pilão, Feira de Santana (BA), o ator José Hilton dos Santos Almeida - Hilton Cobra (1956)
26 – Nasce em Mirante do Paranapanema (SP), o ator Antonio Viana Gomes - Tony Tornado (1930)
26 – Nasce em Alton, Illinois (EUA), o genial inovador do jazz, Miles Deney Davis III - Miles Davis(1926)
27 – Nasce em Yonkers, EUA,
Jayson Tyrone Phillips, o Jadakiss, rapper estadunidense (1975)

27 – Nasce em Três Lagos (MG) José Luís Barbosa, o Zequinha Barbosa, atleta campeão mundial indoor dos 800 metros rasos em Indianápolis, 1987, e ganhador de medalhas de prata e bronze em campeonatos mundiais (1961)

28 – Nasce em Pindamonhangaba (SP), o atleta João Carlos de Oliveira, João do Pulo, recordista mundial no salto triplo (1954)

29 – Nasce em Indiana (EUA), Rebbie Jackson, cantora, irmã mais velha de Michael Jackson (1950)
30 – O Centro de Estudos Afro-Asiáticos, a Sociedade de Estudos da Cultura Negra no Brasil (SECNEB) realizam no Museu de Arte Moderna, Rio de Janeiro, as "Semanas Afro - Brasileiras, incluindo exposições de arte afro-brasileira, experiências de danças rituais Nagô, música sacra, popular e erudita afro-brasileira, seminários e palestras, com um público de aproximadamente 6 mil pessoas (1974)

30 – Nasce em Atlanta, EUA, Ralph Harold Metcalfe, atleta e congressista estadunidense, campeão olímpico do revezamento 4X100m nos jogos de Berlim, em 1936 (1910)

31 – Nasce no Rio de Janeiro Paulo Roberto da Costa, o Paulinho da Costa, percussionista brasileiro que se tornou um dos músicos mais requisitados nos estúdios de gravações em Los Angeles, na Califórnia (EUA) e um dos músicos que mais gravou e participou de discos nos tempos modernos, sendo considerado pela revista Down Beat "um dos percussionistas mais talentosos do nosso tempo (1948)

31 – Nasce Darryl "D.M.C." Matthews McDaniels, rapper estadunidense pioneiro da cultura hip hop e um dos membros fundadores do lendário grupo Run-D.M.C. (1964)

31 – Nasce no Harlem, Nova Iorque (EUA), Azealia Amanda Banks, a Azealia Banks, rapper estadunidense (1991)





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sexta-feira, 16 de junho de 2017

Nota do "Professor Leandro da UnB" sobre o texto que circulou e que não é da sua autoria

"A bênção às mais velhas; a bênção aos mais velhos.

O texto que está circulando começa com “De acordo com o professor Leandro...”. Isso é perigoso porque alguém cita o meu nome, mas não fui eu quem o escreveu. Eu fiz uma fala pública e uma pessoa que me ouviu escreveu e publicou no facebook um texto associando os meus argumentos a uma espécie de “história das origens das oferendas e da macumba”. Em seguida, ela aponta outras coisas de tal modo que não é possível fazer uma separação entre um tema que foi discutido em minha fala e depois as suas considerações próprias a respeito do assunto. Na medida em que este texto viralizou, ficou parecendo que se tratava de um texto de minha autoria, mas não é o caso. Peço licença para explicar nestas próximas linhas o meu entendimento sobre o acontecido.

Na semana passada, eu participei de uma banca de defesa de trabalho de conclusão de curso na Universidade de Brasília. Na ocasião, houve uma discussão sobre como as encruzilhadas atuais das cidades modernas são espaços de sociabilidades e de resistências. Nos semáforos, homens, mulheres e crianças, expressivamente negros e negras, realizam trabalhos diários, conseguindo dinheiro por meio da venda de doces, água, panos de prato, frutas, entre outros produtos.

Na condição de historiador e avaliador do trabalho, provoquei o autor da pesquisa, chamando atenção para o fato de que muitas ruas e encruzilhadas das cidades do nosso país são espaços de memórias do nosso povo negro, pois são locais onde homens, mulheres e crianças negras fizeram negócios, venderam produtos e conquistaram níveis de autonomia, bem como conquistaram as suas liberdades, comprando-as, no período da escravidão. A ideia era perceber que a existência majoritária dos corpos negros em situação de vulnerabilidades sociais nas esquinas das cidades brasileiras, lutando diariamente por sobrevivência, é desdobramento do período colonial e do racismo brasileiro e não são apenas um fenômeno da modernização das cidades com seus semáforos e sinaleiras.

Entretanto, além de serem espaços onde negócios aconteciam e acontecem, as encruzilhadas são domínios das entidades das ruas, dos caminhos e da comunicação, como Exus e Pombagiras. As encruzilhadas são, portanto, espaços especiais de cultos que possuem significados específicos para as pessoas que fazem parte das religiões afro-brasileiras. Interessava-me, com este argumento, trazer referências dos conhecimentos africanos e afro-brasileiros ao trabalho do estudante. Foi neste momento da minha fala que enfatizei que as oferendas nas encruzilhadas PODEM também se configurar como uma importante estratégia de proteção às pessoas em situação de rua, ou que no passado estavam em situação de fuga, uma vez que não é novidade entre as pessoas dos candomblés, dizer que as pessoas nas ruas comem os alimentos que estão nos despachos. É comum encontrar nas oferendas elementos como frango, ovos, farofa, frutas, cachaça, velas, dinheiro. Vale salientar que o universo dos despachos e oferendas é complexo e não são reduzidos às práticas nas ruas.

Historicamente falando, não é difícil vincular a circulação destes alimentos ritualísticos nas cidades brasileiras às várias estratégias emancipatórias e de proteção criadas pelos povos negros, sobretudo diante das experiências da colonização, com as marcas do abandono social, que gerou marginalidades e fome nas ruas para estes povos. No entanto, ainda que algumas pessoas tenham feito uso deste possível mecanismo de enfrentamento das fomes, como eu falei, estas experiências NÃO SÃO A BASE DA ORIGEM DAS INÚMERAS OFERENDAS DOS CANDOMBLÉS NEM DO “SURGIMENTO DA MACUMBA”. Esta teoria é falsa e levar essa ideia adiante seria o mesmo que dizer que em uma situação hipotética onde não houvesse negros e negras em situação de vulnerabilidades no passado em nosso país, teria cessado a prática que os povos africanos trouxeram do continente de realizar suas oferendas. Eu não acredito nisso.

Ora, imaginar que um irmão ou irmã negra daria jeito para alimentar outros irmãos e irmãs em situação de rua, seja nos tempos da escravidão ou nos anos difíceis do pós-abolição, fazendo uso de comidas, cachaças e sinalizando comidas com velas em lugares estratégicos com as encruzilhadas, não é difícil de se pensar. Mas tais práticas se configurariam como experiências particulares ou ainda como ressignificações dos usos das oferendas que já existiam antes, desde as Áfricas, nos cultos aos voduns, nkices e orixás e não explicam o surgimentos dos candomblés nem das inúmeras modalidades de rituais de oferendas.

De fato, em sala de aula, também já enfatizei e enfatizo as estratégias de sobrevivências e de solidariedades que são fundamentais para a resistência do povo negro e já explorei as potencialidades da imagem da circulação de alimentos num contexto urbano, como é o caso de algumas oferendas constituídas por comidas e bebidas. Um dos principais problemas das ideias que estão no texto que viralizou e que não é da minha autoria é que ele não aponta a dimensão dos conhecimentos, ciências, cosmovisões, projetos de sociedade que os povos africanos trouxeram para o Brasil no tráfico atlântico e dá a entender que os candomblés só podem ser compreendidos no “antes e depois” da escravatura. Isso não poderia ser verdade.

Sobre a viralização deste texto, penso que o fato de ter sido citado que “um historiador da unb disse...” deve ter tido um peso grande na credibilidade da circulação do mesmo. Há um vício antigo de pensar que historiadores são “os donos da verdade” e profissionais capazes de explicar as origens das coisas.

Pergunto-me, portanto: por quais motivos este tema passou a interessar a tantas pessoas?

As irmãs e os irmãos de candomblé que me procuraram ontem e hoje, perguntaram se o conteúdo do texto era meu e ficaram muito preocupados com a dimensão da circulação das ideias, pelos motivos já aqui expostos. E, portanto, agradeço pelo cuidado em terem me mantido informado sobre como o meu nome estava circulando no facebook nos últimos dois dias, já que não estou nesta rede social, além de estar fora de Brasília, trabalhando em viagem de campo. Esta dimensão de proteção e cuidado de nós negros e negras com nossos irmãos e irmãos negros é a base da explicação sobre porquê ainda hoje existimos enquanto comunidade, ainda que o projeto colonial do passado, com suas heranças no presente, tenha nos educado para nos destruirmos.

A parte positiva da circulação do texto que escreveram é que foi colocado em pauta a discussão acerca das redes de solidariedades e as práticas de cuidado e amor dos nossos antepassados com os seus irmãos e irmãs negras. Isso também não é novidade para nós! Mas é para muita gente.

Então, para as pessoas que estão impressionadas com a história das comidas, cachaças e velas, saibam que definitivamente não é esse movimento isolado que pode explicar o surgimento nem os fundamentos das complexas oferendas nem dos candomblés. Saibam ainda que os nossos antepassados não só encontraram estratégias para comer e dar de comer aos seus irmãos e irmãs, como construíram inúmeros mecanismos de proteção à escravização de seus corpos no próprio continente africano, fizeram revoltas nos navios negreiros, quebraram engenhos onde realizavam trabalhos forçados, fugiram do cárcere, elaboraram e praticaram projetos de revolução social, criaram e mantiveram quilombos e terreiros de candomblés.

Sem discutir solidariedades, redes de proteção e afetividades é impossível compreender a abolição da escravatura e a permanente luta dos movimentos sociais negros dos séculos XX e XXI. Sem discutir as capacidades de autonomia, autogestão e negação do projeto colonial jamais vamos compreender que os povos africanos que para cá vieram numa migração forçada não foram apenas força de trabalho, como está inscrito na memória nacional. Os negros e as negras que vieram antes de nós, juntamente com os povos originários desta terra, os chamados indígenas, civilizaram este país e jamais vamos compreender a nossa história e as nossas identidades sem conhecermos este patrimônio que nos pertence e que a experiência colonial capitaneada pelos brancos tentou nos tirar. Quando falei publicamente da importância das encruzilhadas quis exatamente chamar a atenção para as formas com as quais estes espaços possuem outras lógicas para o povo de santo, sobretudo no que diz respeito a conhecimentos que estão na oralidade e que a universidade não sabe.

Repito que quem tem o mínimo de conhecimento sobre as religiões de matrizes africanas sabe que relacionar escravidão, fome, oferendas e surgimento dos candomblés não faz o menor sentido. E por isso, muita gente está revoltada com a circulação da referida teoria. Este fenômeno pode revelar também que os povos de santo e o povo negro, de um modo geral, possuem uma memória de contestação das ideias que são elaboradas e defendidas em espaços majoritariamente brancos e elitistas como foram e ainda são as universidades brasileiras.

Muita gente de candomblé, mas não apenas, se enfureceu com o fato de que supostamente um “professor da unb” teria dito algo sobre o “surgimento” dos cultos de matrizes afro-brasileiras. Ora, certamente muita gente questionou: “quem o professor pensa que é para falar sobre os nossos conhecimentos, mistérios e ciências? Quem ele pensa que é para falar por nós, povos de santo?”. De fato, passou-se o tempo em que intelectuais podiam carregar as supostas verdades sobre as coisas do mundo. Isso levanta uma questão muito importante que a nossa geração de professores e professoras, pesquisadoras e pesquisadores negros (bem como os e as integrantes de movimentos sociais) temos debatido e denunciado nos espaços acadêmicos: nós não aceitamos mais que os discursos ditos científicos digam o que somos sem a nossa participação ativa. Claro que isso não impede que pesquisas e trabalhos, etc, sejam realizados, mas desde a conquista das cotas raciais nas universidades brasileiras que há uma expectativa relacionada a recente entrada de estudantes e professores negros e negras, dos quais me incluo, em transformar urgentemente as metodologias e abordagens que os e as cientistas historicamente utilizaram. Afinal, se antes, nós negros e negras éramos os chamados “objetos” de pesquisa, hoje estamos nas salas de aula e laboratórios na condição de pesquisadoras, pesquisadores e cientistas. Mas ainda somos muito poucos nesta condição (Eu, inclusive, sou professor substituto na Universidade de Brasília. Meu contrato vence este mês de junho). Aliás, qual a porcentagem de docentes negras e negros nas universidades públicas e privadas, estaduais e federais em nosso país podendo falar sobre a história do próprio povo negro, entre outros temas? E professores e professoras indígenas?

O texto que viralizou não traz o meu nome completo e sei que muitas pessoas se referiram a este post associando a imagem do doutor ao branco, não supondo sequer que o “professor Leandro da UnB” poderia ser um homem negro engajado em difundir respeitosamente os conhecimentos ligados às tradições brasileiras de matrizes africanas.

É preciso ressaltar que a falta de conhecimentos que o povo brasileiro tem sobre as religiões de matrizes africanas não é um acidente. É parte do racismo estrutural que demonizou e demoniza, perseguiu e persegue as pessoas que fazem parte destas religiões. São permanências de um Brasil do passado que criminalizou os batuques, a capoeira, os candomblés. Trata-se de desconhecimentos estratégicos que negam as nossas capacidades de pensamento, agência de nossas próprias vidas e soberania intelectual e que trazem à tona a necessidade da Lei 10.639 que em 2003 instaurou a obrigatoriedade do ensino da História e Cultura africana e afro-brasileira nas escolas do nosso país. Ainda assim, mesmo depois de 14 anos de promulgação desta Lei, o que sabemos sobre as sociedades africanas, especialmente sobre os povos que vieram para o Brasil no tráfico atlântico? O que sabemos sobre a história e a memória das trajetórias dos nossos antepassados negros e sobre os cultos dos orixás, nkises e voduns? As escolas e as universidades estão cumprindo o seu papel no enfrentamento ao racismo e na formação de gente qualificada para lidar com as questões como o racismo religioso? Ora, não é difícil encontrar pessoas que dizem que as oferendas são “coisas do diabo”, nem é difícil encontrarmos irmãos e irmãs negros que já sofreram com o racismo quando tentaram exercer sua fé afro-brasileira. Brasília, por exemplo, nos últimos anos, teve uma série de casos de terreiros de candomblés violentados.

Chego ao fim deste texto, pedindo imensas desculpas, em especial ao povo de santo e aos povos negros deste país, por todo este mal entendido. Sabemos o quanto que áreas como a História foram responsáveis na construção de teorias equivocadas sobre as memórias dos nossos antepassados. Mas a História pode ser também o espaço das releituras do passado, dos novos questionamentos e da elaboração e ressignificação dos sentidos.

Quando falamos, não temos controle sobre como nossas ideias podem ser interpretadas. Ontem, uma amiga que está em São Paulo me ligou preocupada porque disseram a ela que estava havendo uma confusão com o meu nome porque teriam me visto fazendo despachos na UnB e que isso tinha virado um escândalo. Eu já recebi diferentes versões do texto que está circulando e parece que já tem diferentes autorias.

Amigos enviaram-me alguns posts de pessoas negras (que se diziam candomblecistas, de outras religiões ou sem religiões) que pareciam encantadas com a história que circulou. O que será que estas pessoas pensam sobre afetividades, solidariedades e quilombismo do nosso povo? O que será que sabem sobre os candomblés? Fiquei pensando: o que será que a minha mãe que está na Bahia e que é negra, sabe sobre os candomblés? E meu pai que morreu e que era branco, que ele sabia sobre tudo isso? Eu também estou aprendendo. Mas sei que quando passei a frequentar alguns terreiros de candomblé, ainda quando eu estava na minha cidade da Bahia, mainha ficou muito preocupada e demorou para compreender que eu e, posteriormente, o meu irmão caçula estávamos nos aproximando do universo das religiões de matrizes africanas. Ela achava que poderia estar perdendo seus filhos para alguma coisa ruim. É muito triste pensar que as nossas ancestralidades permanecem potencialmente negativadas, inclusive entre nós, povo negro. O racismo promoveu e ainda promove muita desinformação e isso afeta a todos nós.

Desta experiência ficaram alguns aprendizados. Entre eles, que os ensinamentos são constantes e que seguimos aprendendo sobre as histórias do nosso povo, tão mal contadas.
Palavra é encruzilhada".

Leandro Bulhões
Doutor em História – Universidade de Brasília